Esquecimento frequente: quando é normal e quando pode indicar um problema?
- Sthefane Fidelis
- há 1 dia
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Você já entrou em um cômodo e esqueceu o motivo? Ou precisou voltar para conferir se realmente trancou a porta? Situações como essas são comuns e fazem parte do funcionamento normal da memória humana. No entanto, quando os esquecimentos passam a interferir na rotina, no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos, podem indicar a necessidade de uma investigação mais aprofundada.
A memória é uma das funções cognitivas mais complexas do cérebro humano. Ela permite armazenar, organizar e recuperar informações adquiridas ao longo da vida, sendo fundamental para a aprendizagem, a tomada de decisões e a construção da identidade pessoal.
Por que esquecemos?
Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, esquecer não é necessariamente um sinal de doença. O esquecimento é um processo natural do cérebro e possui funções adaptativas importantes.
Segundo o psicólogo cognitivo Daniel Schacter (2001), autor reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre memória, o cérebro não foi projetado para registrar todos os detalhes das experiências vividas. Pelo contrário, ele seleciona, organiza e prioriza informações consideradas mais relevantes para a sobrevivência e adaptação do indivíduo.
Schacter (2001) descreve os chamados "sete pecados da memória", entre eles a transitoriedade, caracterizada pela perda gradual de informações ao longo do tempo, especialmente aquelas que não são frequentemente utilizadas.
Nesse contexto, esquecer ocasionalmente nomes, datas ou compromissos isolados faz parte do funcionamento normal da cognição humana.
Quando o esquecimento pode ser considerado normal?
Os esquecimentos tendem a aumentar em períodos de:
Estresse intenso;
Sobrecarga mental;
Privação de sono;
Ansiedade;
Excesso de tarefas simultâneas;
Mudanças significativas na rotina.
De acordo com Baddeley, Eysenck e Anderson (2020), a atenção desempenha papel fundamental na formação das memórias. Muitas vezes, a pessoa acredita ter esquecido algo, quando na realidade a informação sequer foi adequadamente registrada devido à distração ou à divisão da atenção entre múltiplas atividades.
Um exemplo comum ocorre quando alguém estaciona o carro enquanto responde mensagens no celular ou pensa em problemas do trabalho. Posteriormente, pode ter dificuldade para lembrar onde estacionou, não porque perdeu a memória, mas porque não dedicou atenção suficiente ao momento.
O impacto do estresse e da ansiedade na memória
A relação entre emoções e memória é amplamente documentada pela neurociência.
O neurocientista Robert Sapolsky (2015) destaca que níveis elevados e persistentes de cortisol, hormônio liberado em situações de estresse, podem prejudicar estruturas cerebrais envolvidas na memória, especialmente o hipocampo.
De forma semelhante, LeDoux (2012) explica que estados emocionais intensos direcionam os recursos cognitivos para a detecção de ameaças e para a sobrevivência, reduzindo a capacidade de concentração e retenção de informações.
Por essa razão, pessoas com ansiedade frequentemente relatam dificuldades de memória, embora o problema principal esteja relacionado à atenção e ao processamento cognitivo, e não necessariamente a uma doença neurodegenerativa.
O sono e sua importância para a memória
Dormir bem não é apenas uma questão de descanso físico. Durante o sono ocorrem processos fundamentais para a consolidação das memórias. Segundo Walker (2018), o cérebro utiliza o período de sono para reorganizar informações aprendidas durante o dia, fortalecendo conexões neurais importantes e descartando conteúdos irrelevantes.
Pesquisas demonstram que indivíduos privados de sono apresentam redução significativa no desempenho de tarefas relacionadas à atenção, aprendizagem e memória. Portanto, antes de atribuir os esquecimentos a problemas neurológicos, é importante avaliar a qualidade e a quantidade do sono.
Quando o esquecimento merece atenção?
Embora muitos esquecimentos sejam considerados normais, alguns sinais podem indicar a necessidade de avaliação especializada.
Entre eles:
Repetir frequentemente as mesmas perguntas;
Esquecer acontecimentos recentes importantes;
Perder-se em locais familiares;
Dificuldade para seguir conversas ou instruções simples;
Problemas para administrar finanças ou atividades habituais;
Mudanças significativas no raciocínio ou na linguagem;
Impacto importante na vida profissional, acadêmica ou social.
De acordo com Petersen et al. (2018), alterações persistentes na memória podem estar associadas a condições como comprometimento cognitivo leve, transtornos neuropsiquiátricos ou doenças neurodegenerativas, exigindo investigação clínica adequada.
O esquecimento sempre indica Alzheimer?
Não.
Esse é um dos maiores equívocos encontrados na prática clínica.
A doença de Alzheimer representa apenas uma das possíveis causas de alterações de memória, especialmente em idosos. Além dela, diversas condições podem produzir queixas semelhantes, incluindo:
Ansiedade;
Depressão;
Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH);
Burnout;
Distúrbios do sono;
Uso de determinados medicamentos;
Deficiências nutricionais;
Condições neurológicas diversas.
Conforme destacado por Dalgalarrondo (2019), alterações cognitivas devem sempre ser analisadas dentro de um contexto clínico mais amplo, considerando fatores emocionais, comportamentais, médicos e ambientais.
Como a avaliação neuropsicológica pode ajudar?
A avaliação neuropsicológica é considerada um dos principais recursos para investigar queixas relacionadas à memória e outras funções cognitivas.
Por meio de entrevistas clínicas, observação comportamental e instrumentos cientificamente validados, é possível identificar se os esquecimentos observados estão dentro do esperado para a idade e contexto do indivíduo ou se representam alterações cognitivas que demandam intervenção.
Além disso, a avaliação permite compreender aspectos relacionados à atenção, funções executivas, linguagem, aprendizagem e funcionamento emocional, fornecendo informações essenciais para o diagnóstico e planejamento terapêutico.
Considerações finais
Esquecer faz parte da experiência humana. Em muitos casos, os lapsos de memória estão relacionados ao estresse, à ansiedade, à sobrecarga de demandas, à privação de sono ou mesmo às características naturais do funcionamento cognitivo. Nosso cérebro não foi desenvolvido para registrar e armazenar todas as informações às quais somos expostos diariamente, mas sim para selecionar aquilo que considera mais relevante em determinado contexto.
No entanto, quando os esquecimentos se tornam frequentes, persistentes ou começam a impactar o desempenho profissional, acadêmico, social ou a autonomia nas atividades do dia a dia, é importante olhar para esses sinais com atenção e sem julgamentos. Mais do que identificar possíveis dificuldades, compreender sua origem permite direcionar intervenções adequadas e promover maior qualidade de vida.
Cuidar da saúde cognitiva também é uma forma de cuidar da saúde emocional. Muitas vezes, a memória reflete não apenas o funcionamento do cérebro, mas também a forma como estamos lidando com as exigências, preocupações e desafios da vida cotidiana.
Se você tem percebido mudanças na sua memória, atenção ou capacidade de aprendizagem, ou se essas dificuldades têm gerado preocupação em você ou em sua família, buscar uma avaliação especializada pode ser um passo importante para obter respostas, orientações e maior tranquilidade. A avaliação neuropsicológica oferece uma compreensão ampla e técnica
sobre o funcionamento cognitivo, contribuindo para decisões mais seguras e para o planejamento de estratégias de cuidado individualizadas.
Investir em autoconhecimento e saúde cognitiva não significa procurar problemas, mas compreender melhor a si mesmo e criar condições para viver com mais autonomia, segurança e bem-estar.
Referências
BADDELEY, Alan D.; EYSENCK, Michael W.; ANDERSON, Michael C. Memory. 3. ed. New York: Psychology Press, 2020.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
LEDOUX, Joseph. O cérebro emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
PETERSEN, Ronald C. et al. Practice guideline update summary: Mild Cognitive Impairment. Neurology, v. 90, n. 3, p. 126-135, 2018.
SAPOLSKY, Robert M. Why Zebras Don't Get Ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2015.
SCHACTER, Daniel L. The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers. Boston: Houghton Mifflin, 2001.
WALKER, Matthew. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. New York: Scribner, 2018.
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