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Ansiedade pode causar falhas de memória?

Mulher demonstrando dificuldade de memória e concentração, com expressão de preocupação e balão de fala escrito "Não me lembro!", ilustrando esquecimentos frequentes relacionados à ansiedade, estresse e funcionamento cognitivo.

Você já entrou em um ambiente e esqueceu o que iria fazer? Já precisou reler várias vezes o mesmo texto porque não conseguia se concentrar? Ou teve a sensação de que sua memória está piorando justamente em períodos de maior preocupação?

Essas são queixas extremamente comuns entre pessoas que convivem com ansiedade. Muitas vezes, o medo de estar desenvolvendo um problema neurológico leva a uma busca por respostas. No entanto, em grande parte dos casos, as dificuldades de memória estão relacionadas ao impacto que a ansiedade exerce sobre a atenção, o processamento de informações e o funcionamento cognitivo como um todo.

Mas afinal, a ansiedade realmente pode causar falhas de memória?

A resposta é sim. Embora a ansiedade não seja necessariamente uma doença da memória, ela pode afetar significativamente processos cognitivos essenciais para o armazenamento e a recuperação de informações.


O que acontece no cérebro durante a ansiedade?

A ansiedade é uma resposta natural do organismo diante de situações percebidas como ameaçadoras. Ela faz parte dos mecanismos de sobrevivência e prepara o corpo para reagir rapidamente diante de desafios.

Segundo LeDoux (2012), estruturas cerebrais como a amígdala desempenham papel central na identificação de ameaças e na ativação das respostas emocionais. Quando o cérebro interpreta determinada situação como perigosa, ocorre uma série de alterações fisiológicas envolvendo aumento da frequência cardíaca, tensão muscular e liberação de hormônios relacionados ao estresse.

Em situações pontuais, essa resposta é adaptativa. Contudo, quando a ansiedade se torna intensa ou persistente, pode comprometer diversas funções cognitivas.


Como a ansiedade afeta a memória?

Para compreender essa relação, é importante entender que a memória não funciona de maneira isolada. De acordo com Baddeley, Eysenck e Anderson (2020), a formação de memórias depende inicialmente da atenção. Antes de armazenar uma informação, o cérebro precisa percebê-la, processá-la e organizá-la adequadamente.

Quando a pessoa está excessivamente preocupada, grande parte dos recursos cognitivos fica direcionada para pensamentos relacionados a possíveis ameaças, problemas futuros ou preocupações constantes.

Nesse contexto, a atenção torna-se fragmentada, dificultando a codificação das informações. Muitas vezes, a pessoa acredita que esqueceu algo quando, na realidade, a informação nem chegou a ser registrada adequadamente.


O papel da atenção nas falhas de memória

A psicologia cognitiva demonstra que muitos esquecimentos cotidianos estão mais relacionados a falhas de atenção do que a alterações reais da memória.

Schacter (2001), descreve a distração como uma das causas mais frequentes dos esquecimentos do dia a dia. Segundo o autor, quando estamos mentalmente ocupados com preocupações ou estímulos concorrentes, aumentam as chances de não registrarmos adequadamente informações importantes.

Isso explica por que pessoas ansiosas frequentemente relatam situações como:

  • Esquecer compromissos;

  • Perder objetos com frequência;

  • Não lembrar onde estacionaram o carro;

  • Esquecer o conteúdo de uma conversa recente;

  • Ter dificuldade para acompanhar leituras ou estudos.

Em muitos desses casos, o problema principal está na atenção comprometida pela ansiedade.


O impacto do estresse crônico no cérebro

A ansiedade prolongada geralmente está associada à ativação contínua dos sistemas biológicos de estresse.

Sapolsky (2015) explica que a exposição persistente ao cortisol, hormônio liberado em situações de estresse, pode afetar estruturas cerebrais importantes para a memória, especialmente o hipocampo.

O hipocampo desempenha papel fundamental na formação de novas memórias e na consolidação das experiências vividas.

Embora isso não signifique que a ansiedade cause necessariamente danos permanentes, níveis elevados e prolongados de estresse podem contribuir para dificuldades cognitivas temporárias e sensação subjetiva de perda de memória.


Ansiedade causa perda de memória ou apenas sensação de esquecimento?

Essa é uma dúvida frequente.

Segundo Beck (2022), indivíduos com transtornos de ansiedade costumam apresentar elevada autoconsciência em relação aos próprios erros e dificuldades. Isso faz com que pequenos esquecimentos, que seriam considerados normais em outras circunstâncias, sejam percebidos como evidências de um problema mais grave.

Além disso, pessoas ansiosas frequentemente monitoram seu desempenho cognitivo de forma excessiva, aumentando ainda mais a preocupação com lapsos de memória.

Em muitos casos, o que existe é uma combinação entre:

  • Atenção prejudicada;

  • Sobrecarga mental;

  • Preocupação constante;

  • Interpretação catastrófica dos esquecimentos.

Esse ciclo pode reforçar a percepção de que a memória está piorando.


Ansiedade, memória de trabalho e funções executivas

Além da memória, a ansiedade pode afetar funções executivas importantes para a vida cotidiana.

Diamond (2013) destaca que habilidades como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva dependem de um funcionamento eficiente do córtex pré-frontal.

Quando o cérebro permanece em estado constante de alerta, essas funções tendem a apresentar pior desempenho.

Como consequência, podem surgir dificuldades para:

  • Planejar tarefas;

  • Organizar informações;

  • Tomar decisões;

  • Manter o foco;

  • Resolver problemas;

  • Gerenciar múltiplas demandas simultaneamente.

Por esse motivo, muitas pessoas descrevem a sensação de que a mente está "confusa", "sobrecarregada" ou "travada".


Quando as falhas de memória merecem investigação?

Embora a ansiedade seja uma causa frequente de queixas cognitivas, nem toda dificuldade de memória deve ser atribuída exclusivamente a fatores emocionais.

Segundo Petersen et al. (2018), algumas alterações cognitivas exigem investigação especializada, especialmente quando:

  • Os esquecimentos se tornam progressivamente mais intensos;

  • Há prejuízo significativo no trabalho, estudos ou atividades diárias;

  • A pessoa repete frequentemente as mesmas perguntas;

  • Existem dificuldades importantes de linguagem ou orientação;

  • Os sintomas surgem de forma abrupta.

Nessas situações, a avaliação clínica e neuropsicológica pode ser fundamental para compreender a origem das dificuldades.


Como a avaliação neuropsicológica pode ajudar?

A avaliação neuropsicológica permite investigar de forma detalhada diferentes funções cognitivas, incluindo memória, atenção, linguagem, raciocínio e funções executivas.

Segundo Lezak et al. (2012), esse processo possibilita identificar se as dificuldades observadas são compatíveis com alterações cognitivas específicas ou se estão relacionadas principalmente a fatores emocionais, como ansiedade e estresse.

Além disso, a avaliação fornece informações importantes para orientar intervenções individualizadas e promover estratégias mais eficazes de manejo das dificuldades.


O papel da psicoterapia no tratamento da ansiedade

Quando as falhas de memória estão associadas à ansiedade, o tratamento costuma envolver a redução dos fatores que mantêm o estado de alerta constante.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), amplamente estudada por Beck (2022), apresenta forte evidência científica para o tratamento dos transtornos de ansiedade.

Por meio da psicoterapia, é possível desenvolver habilidades relacionadas à regulação emocional, manejo de preocupações excessivas, organização da rotina e redução dos sintomas cognitivos associados à ansiedade.

Além disso, hábitos como prática regular de atividade física, sono adequado, técnicas de relaxamento e estratégias de atenção plena também podem contribuir significativamente para a melhora do funcionamento cognitivo.


Considerações finais

Perceber falhas de memória pode ser assustador, especialmente quando elas começam a interferir na rotina ou despertam receios sobre a própria saúde. No entanto, é importante lembrar que memória, atenção e emoções estão profundamente conectadas.

Em muitos casos, aquilo que parece ser um problema de memória está relacionado ao impacto da ansiedade sobre os processos cognitivos. Quando a mente permanece constantemente ocupada por preocupações, medos e antecipações, torna-se mais difícil prestar atenção, organizar informações e recuperar lembranças de forma eficiente.

A boa notícia é que essas dificuldades podem ser compreendidas e tratadas. Com uma investigação adequada, é possível identificar se os esquecimentos estão relacionados principalmente à ansiedade, ao estresse ou a outros fatores que mereçam atenção especializada.

A avaliação neuropsicológica pode oferecer uma compreensão detalhada do funcionamento cognitivo, enquanto a psicoterapia auxilia no desenvolvimento de estratégias para lidar com a ansiedade e recuperar a sensação de controle sobre a própria vida. Em muitos casos, a combinação dessas abordagens permite não apenas reduzir sintomas, mas também promover maior bem-estar, autonomia e qualidade de vida.

Se você tem percebido dificuldades frequentes de memória, atenção ou concentração, buscar orientação profissional pode ser um passo importante para compreender o que está acontecendo e encontrar as estratégias mais adequadas para sua realidade. Entre em contato para saber mais sobre avaliação neuropsicológica e psicoterapia baseada em evidências científicas.


Referências

BADDELEY, Alan D.; EYSENCK, Michael W.; ANDERSON, Michael C. Memory. 3. ed. New York: Psychology Press, 2020.


BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.


DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, 2013.


LEDOUX, Joseph. O cérebro emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


LEZAK, Muriel D. et al. Neuropsychological Assessment. 5. ed. New York: Oxford University Press, 2012.


PETERSEN, Ronald C. et al. Practice guideline update summary: Mild Cognitive Impairment. Neurology, v. 90, n. 3, p. 126-135, 2018.


SAPOLSKY, Robert M. Why Zebras Don't Get Ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2015.


SCHACTER, Daniel L. The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers. Boston: Houghton Mifflin, 2001.


GAZZANIGA, Michael S.; IVRY, Richard B.; MANGUN, George R. Neuroscience: The Biology of the Mind. 5. ed. New York: W. W. Norton, 2018.


DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

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