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Quando a desorganização deixa de ser um hábito e passa a ser um problema clínico?

Mulher analisando agenda e lista de tarefas enquanto enfrenta dificuldades de organização relacionadas às funções executivas e à desorganização crônica.
A desorganização persistente pode estar relacionada a fatores emocionais, cognitivos ou neuropsicológicos que merecem investigação especializada.

Quem nunca perdeu uma chave, esqueceu um compromisso ou acumulou tarefas para depois? Em algum grau, a desorganização faz parte da experiência humana. Entretanto, quando ela se torna frequente, persistente e começa a prejudicar a

vida pessoal, acadêmica, profissional ou social, pode representar mais do que uma simples característica de personalidade.

A dificuldade para organizar o tempo, planejar atividades, cumprir prazos e manter rotinas estruturadas está frequentemente relacionada ao funcionamento das chamadas funções executivas, um conjunto de habilidades cognitivas essenciais para a autonomia e adaptação ao ambiente.

Mas como diferenciar uma desorganização comum de um problema que merece atenção profissional?


O que é a desorganização?

A desorganização pode ser entendida como a dificuldade de estruturar comportamentos, gerenciar demandas e manter controle sobre tarefas e responsabilidades do cotidiano.

Segundo Lezak et al. (2012), as funções executivas são responsáveis por processos como planejamento, monitoramento, organização, tomada de decisões, autocontrole e flexibilidade cognitiva. Quando essas habilidades não funcionam adequadamente, o indivíduo pode apresentar dificuldades significativas para administrar sua rotina.

Isso significa que a desorganização nem sempre está relacionada à falta de interesse, preguiça ou irresponsabilidade. Em muitos casos, ela reflete limitações em processos cognitivos específicos.


Por que algumas pessoas são mais desorganizadas que outras?

As diferenças individuais na organização são influenciadas por fatores biológicos, psicológicos e ambientais.

De acordo com Barkley (2022), a capacidade de autorregulação depende diretamente do desenvolvimento das funções executivas, especialmente aquelas associadas ao córtex pré-frontal, região cerebral responsável pelo controle do comportamento orientado a objetivos.

A neurocientista Adele Diamond (2013) destaca que habilidades como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva constituem a base do funcionamento executivo e influenciam diretamente a capacidade de organizar tarefas e lidar com múltiplas demandas simultaneamente.

Além dos aspectos neurobiológicos, fatores como estresse crônico, privação de sono, ansiedade, sobrecarga ocupacional e dificuldades emocionais também podem comprometer a organização cotidiana.


Quando a desorganização é considerada normal?

A desorganização ocasional costuma ocorrer em momentos de:

  • Mudanças importantes na vida;

  • Sobrecarga de trabalho;

  • Excesso de compromissos;

  • Estresse elevado;

  • Privação de sono;

  • Demandas emocionais intensas.

Conforme explica Sapolsky (2015), situações prolongadas de estresse aumentam a liberação de cortisol, o que pode prejudicar temporariamente processos relacionados à atenção, memória e planejamento.

Nesses casos, a desorganização tende a ser transitória e melhora quando os fatores estressores diminuem ou quando a pessoa consegue reorganizar sua rotina.


Quando a desorganização pode indicar um problema clínico?

A preocupação surge quando a dificuldade de organização é persistente, está presente em diferentes contextos e gera prejuízos significativos.

Alguns sinais de alerta incluem:

  • Atrasos frequentes;

  • Perda constante de objetos importantes;

  • Dificuldade para cumprir prazos;

  • Esquecimento recorrente de compromissos;

  • Incapacidade de concluir tarefas iniciadas;

  • Acúmulo excessivo de demandas;

  • Problemas acadêmicos ou profissionais decorrentes da falta de organização;

  • Impacto negativo nos relacionamentos.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5-TR), dificuldades persistentes relacionadas à organização podem estar presentes em diferentes condições clínicas, especialmente nos transtornos do neurodesenvolvimento e em alguns transtornos psiquiátricos.


A relação entre desorganização e TDAH

Uma das condições mais frequentemente associadas à desorganização é o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

De acordo com Barkley (2022), o TDAH não é apenas um transtorno da atenção, mas principalmente uma condição relacionada a déficits de autorregulação e funcionamento executivo.

Adultos e crianças com TDAH frequentemente apresentam dificuldades para:

  • Planejar atividades;

  • Priorizar tarefas;

  • Administrar o tempo;

  • Organizar materiais;

  • Cumprir compromissos;

  • Monitorar o próprio desempenho.

Brown (2013) destaca que muitos indivíduos com TDAH possuem inteligência preservada ou acima da média, mas enfrentam dificuldades significativas para transformar intenções em ações organizadas e consistentes.


Ansiedade, depressão e desorganização

Nem toda desorganização está relacionada ao TDAH.

Conforme aponta Beck (2022), transtornos de ansiedade podem consumir recursos atencionais importantes, dificultando a concentração e a execução eficiente das tarefas cotidianas.

Da mesma forma, a depressão pode provocar redução da energia, lentificação cognitiva, dificuldades de planejamento e diminuição da motivação.

Dalgalarrondo (2019) ressalta que alterações cognitivas observadas em transtornos emocionais frequentemente afetam a capacidade de organização e produtividade, mesmo na ausência de déficits intelectuais.


O papel das funções executivas

A neuropsicologia moderna considera as funções executivas um dos pilares da adaptação humana.

Segundo Diamond (2013), essas habilidades permitem que a pessoa:

  • Estabeleça metas;

  • Planeje estratégias;

  • Controle impulsos;

  • Avalie consequências;

  • Monitore resultados;

  • Ajuste comportamentos diante de desafios.

Quando há comprometimento dessas capacidades, a desorganização deixa de ser apenas um hábito e passa a representar uma dificuldade funcional que interfere diretamente na qualidade de vida.


O que a neurociência revela sobre a organização?

Pesquisas em neuroimagem demonstram que regiões do córtex pré-frontal exercem papel fundamental na gestão do comportamento organizado.

Gazzaniga, Ivry e Mangun (2018) descrevem o córtex pré-frontal como um verdadeiro "centro de comando" cerebral, responsável pela coordenação das ações dirigidas a objetivos.

Da mesma forma, Miller e Cohen (2001) propõem que essa região atua integrando informações e regulando comportamentos complexos necessários para o planejamento e a organização.

Essas descobertas ajudam a compreender por que algumas pessoas enfrentam dificuldades persistentes de organização, mesmo quando possuem boa inteligência e forte desejo de realizar suas atividades.


Como a avaliação neuropsicológica pode ajudar?

A avaliação neuropsicológica é uma ferramenta fundamental para investigar as causas da desorganização persistente.

Por meio de entrevistas clínicas, observação comportamental e testes padronizados, é possível analisar habilidades relacionadas à atenção, memória, planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e demais funções executivas.

Esse processo permite diferenciar dificuldades ocasionais decorrentes do contexto de vida de alterações cognitivas associadas a condições clínicas específicas.

Além disso, a avaliação contribui para o desenvolvimento de estratégias personalizadas de intervenção, favorecendo maior autonomia e qualidade de vida.


Considerações finais

Ser desorganizado ocasionalmente não significa ter um transtorno. Entretanto, quando a dificuldade para planejar, administrar o tempo e cumprir responsabilidades se torna constante e gera prejuízos relevantes, é importante investigar suas causas com cuidado e sem julgamentos.

A organização não depende apenas de força de vontade. Ela envolve processos cognitivos complexos, influenciados por fatores neurológicos, emocionais e ambientais. Por isso, muitas pessoas se sentem frustradas ao tentar “se esforçar mais” e não conseguir mudanças duradouras.

Felizmente, existem estratégias que podem ajudar no dia a dia, como o uso de agendas ou aplicativos para planejamento, divisão de tarefas em etapas menores, criação de rotinas previsíveis, definição de prioridades e pausas estruturadas. Além disso, aprender a reconhecer limites, reduzir a sobrecarga e cuidar da saúde emocional também são passos fundamentais para melhorar a organização.

No entanto, quando essas dificuldades persistem, buscar apoio profissional pode fazer toda a diferença. Um olhar especializado permite compreender não apenas o que está acontecendo, mas também por que isso acontece, oferecendo orientações personalizadas e mais eficazes.

Compreender a origem dessas dificuldades é o primeiro passo para desenvolver estratégias mais adequadas e promover um funcionamento mais saudável, respeitando o seu ritmo e suas particularidades.

Se você percebe que a desorganização tem impactado sua rotina, seus estudos, seu trabalho ou seus relacionamentos, saiba que você não precisa lidar com isso sozinho. Uma avaliação neuropsicológica ou acompanhamento terapêutico pode ajudar a trazer mais clareza, organização e qualidade de vida, permitindo que você desenvolva habilidades importantes de forma mais leve e possível dentro da sua realidade.


Referências

BARKLEY, Russell A. Taking Charge of Adult ADHD. 3. ed. New York: Guilford Press, 2022.

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.


BROWN, Thomas E. A New Understanding of ADHD in Children and Adults: Executive Function Impairments. New York: Routledge, 2013.


DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.


DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, 2013.


GAZZANIGA, Michael S.; IVRY, Richard B.; MANGUN, George R. Neuroscience: The Biology of the Mind. 5. ed. New York: W. W. Norton, 2018.


LEZAK, Muriel D. et al. Neuropsychological Assessment. 5. ed. New York: Oxford University Press, 2012.


MILLER, Earl K.; COHEN, Jonathan D. An integrative theory of prefrontal cortex function. Annual Review of Neuroscience, v. 24, p. 167-202, 2001.


SAPOLSKY, Robert M. Why Zebras Don't Get Ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2015.


AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

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